Sobre Rasgueos (rasgueados), por Fábio Nin

Criada provavelmente pelos ciganos da Espanha, do ramo “Kalon” (dicionarizado em português como Calom), os rasgueados consistem em tanger as cordas do violão com a parte superior das unhas, movendo as mãos de dentro para fora, num movimento que é o contrário da maior parte das técnicas de violão convencionais: enquanto os rasgueados ocorrem num movimento de afastamento dos dedos em relação à palma da mão, normalmente nas demais técnicas (escalas, arpejos, toques com o polegar), movemos os dedos sempre em direção ao centro da mão. Os diversos tipos de rasgueados fazem parte de um grupo de técnicas de grande força expressiva e volume. Ocorrendo há séculos, acompanham a evolução da guitarra, como é chamado o violão em terras ibéricas.
 
Desde sempre, a Espanha é um território de misturas e miscigenação. Por ali, passaram diversos povos, que deixaram suas marcas sobre a cultura da península. Fenícios, gregos, romanos, visigodos, mouros; diversos povos se digladiaram pelo controle do território, muito antes que os modernos Estados de Espanha e Portugal se estabelecessem.  Hábeis ferreiros e domadores de cavalos, os Kalon  integraram-se à grande conquista islâmica, numa relação simbiótica na grande marcha dos exércitos de Damasco, que após conquistar todo o grande Norte da África, atravessaram o estreito de Gibraltar e conquistaram quase toda a península Ibérica, a partir do ano de 712. Os Calom chegaram à península numa onda migratória posterior, segundo pesquisas recentes por volta do século XIII.
 
Uma característica interessante da península sob domínio mouro é a relativa tolerância religiosa dos soberanos islâmicos. Nesse contexto, povos perseguidos em outros locais coexistiram, atraindo sábios de várias procedências à primitiva Iberia, que foi dividida depois pelos romanos em Hispânia e Lusitânia. Por volta do ano 1000, al-Andalus -  nome da província dentro do vasto império - era um dos locais mais desenvolvidos do mundo antigo, representando a vanguarda da matemática, da astronomia, arquitetura e artes. O flamenco floresceu a partir da mistura entre árabes mouros, ciganos kalon e judeus sefaraditas, perseguidos após o surgimento da Espanha moderna dos reis católicos, que após séculos de batalhas, terminaram a obra de reconquista que seus antepassados empreenderam por séculos. Apesar da mistura antiga, o que conhecemos estritamente como arte flamenca é bastante recente, a partir de meados do século XIX.
 
Não podemos,  por outro lado, de forma alguma desprezar a fundamental contribuição das colônias espanholas na América, com especial ênfase sobre Cuba, no que toca mais especificamente ao flamenco. A ilha caribenha desponta como a porta de entrada, a principal ligação com a metrópole, desde quando um édito da coroa espanhola, do ano de 1556, decidiu “outorgar à cidade de São Cristóvão de Havana a categoria de ‘porto principal’, onde deveria se reunir a frota para regressar a Sevilha e/ou a Cádiz”, cidades localizadas ao Sul da Espanha, na região histórica da Andaluzia.          
 
Essas duas cidades do Sul da Espanha possuem até hoje uma expressiva população de árabes mouros e ciganos. Pois foi exatamente a também miscigenada música das colônias, plena de contribuições africanas e ressignificações, que trouxe um sopro novo, um frescor para a cena musical espanhola.
 
As técnicas da guitarra foram desenvolvidas junto com o canto e o baile flamencos, ao longo dos séculos, até chegar aos nossos dias, onde fazem parte de uma arte admirada ao redor do mundo, praticada em todos os continentes e patrimônio cultural da humanidade. Os rasgueos são a alma da guitarra flamenca, sua principal característica, e um dos segredos da impressionante técnica que os expoentes do instrumento apresentam.
 
Ao exercitar os diversos rasgueos, o violonista de qualquer estilo beneficia-se de um movimento complementar à técnica convencional, tonificando músculos e tendões que normalmente são pouco acionados em outros estilos. Na técnica convencional, utiliza-se principalmente o feixe de tendões da parte interna do braço. Exemplo: para uma escala, contraem-se os músculos dessa região interna, que tangem a corda; porém, para tanger a corda novamente, é preciso fazer o dedo retornar rapidamente à sua posicão inicial, utilizando-se então os tendões da parte externa do braço. Porém, não os exercitamos regularmente. Os rasgueos trabalham principalmente os tendões e músculos da parte externa, equilibrando a técnica geral e trazendo resultados positivos. Recomendamos fortemente o estudo dos rasgueados a todos os violonistas!
 
Um abraço.
 
FÁBIO NIN